Blog do Professor Márcio

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terça-feira, 28 de abril de 2015

Mais uma enganação pública

A despeito de toda a propaganda, a população de Paracatu já não crê na inocência do arsênio. Caiu a máscara desse moço, que durante os últimos 28 anos tem freqüentado os lares de nossa cidade.

Porém, a rede de poder da Kinross tem se esforçado para respaldar as atividades da mineradora, e a última manobra foi a convocação de uma audiência pública em 29/04/2015, para ouvir um pesquisador da Universidade Federal de Lavras, um dos autores de um projeto para avaliar se o material da mina oferece risco à população infantil de Paracatu. 

O trabalho é de Fábio Benedito Ono e outros. Foi publicado em inglês e seu título parece confiável. Traduzido para o português: “Bioacessibilidade do arsênio em uma área de mineração de ouro: avaliação de risco para a saúde de crianças”.

O artigo acima citado é um estudo financiado pela Kinross, realizado com os objetivos de (i) avaliação da bioacessibilidade do arsênio em amostras estratificadas de uma área de mineração de ouro e (ii) avaliação à exposição a de crianças aos materiais contaminados por arsênio. De acordo com os autores, foram utilizadas amostras de uma reserva ambiental na área da mina (como controle); de solo da extremidade da área de lavra; de solo de área revegetada; de rocha não lavrada, com baixo teor aurífero (portanto, não se tratava de minério, segundo a definição clássica deste termo) e de material da bacia de decantação, obtido a partir da barragem de retenção utilizada para recolher os resíduos da fundição de ouro. 

Ora, como se tratou de um estudo financiado pela mineradora, ela não iria produzir provas contra si própria, razão porque os pesquisadores não analisaram a poeira fugitiva da mina, a poeira disseminada nas instalações de beneficiamento do minério, o arsênio contido nas águas da bacia do Santa Rita e na poeira das residências do entorno da mina. Até mesmo o pó do minério produzido nas frentes de lavra ficou fora do estudo.

Pergunte-se: quem, até hoje, acusou a possibilidade de o solo próximo à mina ou o próprio minério da mina oferecer risco a crianças, adultos ou velhos? Responda sinceramente: ninguém, em sã consciência, fez tal acusação! Todos aqueles que acusam a mineradora de contaminar o ar e as águas o fazem sabendo que o minério, em seu estado natural, não apresenta toxidade; mas que a sua transformação a partir do beneficiamento gera enorme quantidade de arsênio sob forma tóxica.

Com tipos de amostras escolhidas a dedo, o artigo deixa evidente que apenas o material do rejeito oferece risco. (E que risco! Veja-se a contaminação das águas da bacia hidrográfica do Ribeirão Santa Rita, mostrada no Relatório Final do Estudo Epidemiológico realizado pelo CETEM/FUNCATE). Enquanto isso, segundo o estudo, “embora as concentrações de As sejam muito elevadas na área de lavra, a bioacessibilidade do arsênio foi baixa (menor que 4,2%)". Conclusão óbvia, elementar, meu caro Watson! Se o arsênio está na sua forma natural, sob a forma de sulfeto (arsenopirita) ele não é bioacessível, não oferece risco. Depois que o minério é processado, passa pela cianetação, o arsênio é oxidado, assumindo sua forma tóxica, sob a qual está na barragem de rejeito e no âmbito das instalações de beneficiamento.

Mas, atenção! O tal estudo não afirma que o As da mina Morro do Ouro não está biodisponível. Ele mostra que a biodisponibilidade é muito alta para amostras de sedimento (da bacia de decantação) e baixa para amostras de solo. Para a poeira fugitiva da mina, não há resultados e os autores nada podem afirmar.

Mas, não é que esta pesquisa bem ajeitada está sendo utilizada para fazer uma "cortina de fumaça" sobre a realidade que a população começou a ver? Chegou-se a afirmar, na audiência pública em questão, que a poeira da mina não tem arsênio bioacessível!!!

Estão fazendo confusão entre particulados de solo e poeira fugitiva da mina. Tal confusão só poderia ser entendida em dois casos: i) quando não se sabe o que é poeira de mina e ii) quando intencionalmente se quer confundir poeira e solo de uma mina.

Quem conhece a mina Morro do Ouro sabe que a poeira que de lá se desloca (poeira fugitiva) não se constitui apenas do arraste e suspensão de partículas de material estratificado, mas de uma mistura complexa. Na área de lavra, observa-se que as vias de tráfego pesado são aspergidas com água retirada da barragem de rejeitos e dos tanques de drenagem ácida de mina, uma solução altamente tóxica contendo ácido sulfúrico e metais pesados, os quais estão em grande parte oxidados e ionizados, e não mais em seu estado natural na rocha. Quando aspergidas no solo e com o ressecamento deste, o material particulado que sobe na forma de poeira carrega consigo metais pesados e ácido sulfúrico, acidificando a atmosfera e tornando-a poluída em metais que foram adsorvidos nos particulados. 

Outra parte que irá compor a poeira fugitiva são as emanações na área industrial, resultantes do processamento químico do minério. Essas são as mais perigosas, pois nelas estão presentes o arsênio sob a forma de óxidos (sua forma tóxica, biodisponível) e cianeto. Os autores, logicamente, não iriam estudar essas emanações, mas elas estão presentes na área industrial. 

Finalmente, temos que agregar á poeira fugitiva da mina as emanações da bacia de decantação, tanto dos tanques específicos quanto das barragens de rejeitos, porque embora o arsênio esteja ali em meio aquoso, ele também pode ser encontrado na forma de gás e, além disso, são locais de exalação de cianeto.

Entretanto, parece que a confusão entre solo e poeira fugitiva de mina não vem por conta da ignorância do assunto, mas da intenção de mostrá-la inofensiva a tantos que não a conhecem. Isto atenta contra os princípios da Precaução e da Prevenção, consagrados na legislação ambiental. 

Como sempre, a audiência pública ocorrida em 29 de abril não foi para ouvir o público, mas para veicular um trabalho de encomenda para apresentar provas que nada provam. Assim, se tenta legitimar o domínio e a submissão do povo de Paracatu.


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